Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006

O CALOR - REFLEXOS E REFLEXÕES


Orlando Mattos

"Foi no decorrer do ano maldito, do ano a que chamámos "o festim do sol". É que o sol, nesse ano, dilatou o deserto. Brilhou e brilhou sobre as areias, entre as ossadas, as sarças secas, as peles transparentes dos lagartos mortos e essa erva dos camelos mudada em crinas. Aquele que faz crescer os caules das flores tinha devorado as suas criaturas e reinava sobre os cadáveres dispersos delas, da mesma maneira que a criança reina sobre os brinquedos que destruíu.
Absorveu até as reservas subterrâneas e bebeu a água dos poços existentes. Absorveu mesmo os dourados das areias, que se tornaram tão vazias e brancas, que baptizámos a região como o nome de espelho. É que um espelho não contem  absolutamente nada e as imagens que o recheiam não têm peso  nem duração. É que um espelho queima por vezes os olhos, como um lago de sal."

Saint-Exupéry in Cidadela

publicado por soaresesilva às 19:54

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22 comentários:
De conchitamachado a 6 de Setembro de 2006 às 22:29
Imagens cheias de simbolismo...

Terno Abraço
ConchitaMachado
De Praia da Claridade a 7 de Setembro de 2006 às 01:33
Até me "arrepio" ao ler este post ... porque é uma reflexão que podia tornar-se realidade !
Porque penso muitas vezes que qualquer elemento da Natureza possa desfazer por completo aquilo que o Homem tem edificado...
Ele próprio já é uma vítima daquilo que tem feito de errado no nosso Planeta. Muitos povos já estão a sofrer com esses erros... Todos sabemos como está este Mundo !
Só é de lamentar que, quando os responsáveis "acordarem", já seja tarde de mais !
De Castanheira Maia a 7 de Setembro de 2006 às 02:02
O deserto é algo que tanto de belo como de arrasador eu que o diga até tenho um blogue assim e tudo:)

Gosto muito de voltar ao teu blogue, faz pensar no que estou a ler perco ou ganho muito tempo a deambular nas palavras, isso é muito positivo ;)
De Blogue da Magui a 7 de Setembro de 2006 às 05:40
Fez bem em publicar esse belíssimo texto.Pelo que andou acontecendo em Portugal veio a calhar.
De Pensamentos do João a 7 de Setembro de 2006 às 12:46
O calor já lá vai,
mas as sensações ainda não...
tem um resto de uma boa semana luisa :)
um beijo :)
De TiBéu ( Isa) a 7 de Setembro de 2006 às 18:27
Aceita o meu desafio
De APC a 7 de Setembro de 2006 às 20:46
Praia: e aquilo que o Homem edifica arruinará com os elementos da natureza... Água doce em perigo, ozono em perigo, etc,. etc. :-)))
Soares (lol): a passagem é forte e muito bonita.
:-*
De jo a 7 de Setembro de 2006 às 21:27
A Natureza sempre teve ciclos que quase destruiram o planeta, mas também foi tendo força para se recuperar. Entretanto apareceu o Homem, que, na ânsia de se ultrapassar, mais não tem feito que ajudar a destruir, possivelmente, sem retorno.
De Mel de Carvalho a 7 de Setembro de 2006 às 22:40
"É que um espelho não contem absolutamente nada e as imagens que o recheiam não têm peso nem duração. É que um espelho queima por vezes os olhos, como um lago de sal."

O espelho de nós mesmos. A nossa reflexão, o efémero, o transitório... e, simultâneamente em momentos, a nossa imagem projectada é de tal forma grotesca, disforme, que nos consegue ferir tal um lago de sal.
Saint-Exupéry teve a sabedoria de, em frase metafóricas nos conduzir ao mais secreto de nós mesmos. A vulnerabilidade do ser humano e, ao mesmo tempo a sua pequenez perante o Universo grandioso.
Nada se ajustaria melhor ao meu estado de espírito, hoje em que vi a minha imagem, grotesca, desmensurada e patética projectada num lençol de sal (as minhas próprias lágrimas).
O Sol havia devorado as minhas asas, eu tombava sobre o peso de uma ilusão "nada era meu, nem eu própria sou alguma coisa"...
Bjs da AVeneziana



De era uma vez um girassol a 8 de Setembro de 2006 às 00:46
Gostei muito da música, do texto, do quadro de Picasso...
Bjs

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