Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

BALÕES E DESILUSÕES


L'enfant aux ballons - David Jamin

 

 

"Junto aos Armazéns do Grandella havia um homem a vender balões, e, fosse por tê-lo eu pedido (do que duvido muito, porque só quem espera que se lhe dê é que se arrisca a pedir), fosse porque minha mãe tivesse querido, excepcionalmente, fazer-me um carinho público, um daqueles balões passou à minha mão. Não me lembro se ele era verde ou vermelho, amarelo ou azul, ou branco simplesmente. O que depois se passou iria apagar para sempre da minha memória a cor que deveria ter-me ficado pegada aos olhos para sempre, uma vez que aquele era nada mais nada menos que o meu primeiro balão em todos os seis ou sete anos que levava de vida. Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvasiara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo."

 

José Saramago in As Pequenas Memórias

publicado por soaresesilva às 21:30

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26 comentários:
De Ventor a 5 de Julho de 2007 às 22:58
Todos temos os nossos balões e quantas vezes, com os balões, as nossas surpresas.
Uma vez, fui a um infantário buscar uma menina, filha de uma prima minha, com menos de dois anos e como tinha sido, por acidente, para que não ficasse aborrecida ver-me a mim em vez da mãe, deu-me para lhe comprar um balão. Ela ia toda encantada com aquela coisa tão simples. Por acaso recordo-me que era azul! Ao descer as escadas para o Metro, no Marquês de Pombal, ela ia toda encantada a olhar o balão lá em cima suspenso num cordel. Com a diferença de temperatura, baaam!!! A miúda, puxou o cordel e olhou em redor, silenciosamente, com os olhos esbugalhados a ver onde o balão se teria metido. Ao ver que não o encontrava e enquanto eu esperava uma berraria, olhou para mim, abriu os braços e passou-me o cordel. Percebeu logo que o mundo dela se esvaiu ali. Fiquei admirado porque não houve a surpresa do choro. Em tantos anos e com tantas crianças a quem ofereci balões, nunca vi reacção igual. Bjs.
De Balões a 30 de Dezembro de 2008 às 18:01
E o que dizer das crianças de hoje, que com tanta oferta de brinquedos, muitas nem sequer brincam mais do que alguns minutos com o brinquedo que acabaram de receber.
De carla granja a 6 de Julho de 2007 às 02:05
olá. gostei do teu blog e da historia do balão, é engraçado pois agora fiquei a pensar kem terá sido a primeira pessoa k me deu um balão e de k côr seria. lembro-me de uma historia minha de kuando era pequena mas foi com uma boneca k eu peguei nela e fiz-lhe um corte de cabelo radical a pensar k depois logo crescia, kuando me disseram k isso nao ia acontecer , não chorei,mas não cortei mais cabelos até hoje. eu tmb tenho um blog com poemas feitos por mim e fotos tmb,se kiseres dá uma olhada
.http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt
bjo
carla granja.

De Ana S a 6 de Julho de 2007 às 14:30
Mesmo que o mundo seja sujo e informe vale sempre a pena viver. bom fim de semana
De Sindarin a 6 de Julho de 2007 às 19:25
Olá qerida amiga! Fiquei sem palavras simplesmente. A maladade dos homens ñ se compadece com o olhar duma criança. Bonito o quadro. Deixo um imenso beijinho carinhoso e o desejo de um magnífico fsemana!
De maripossa a 7 de Julho de 2007 às 00:08
Amiga Luísa. Belo este quadro humano, pois a tua história é linda, mas o homem como sempre estraga a ilusão de um simples olhar de uma criança, essa que eras tu. Beijinho amiga, bom fim semana
maripossa
De Rhiannon a 7 de Julho de 2007 às 01:22
Quantos balões vazios, sem darmos conta, já arrastamos... Continuo a acreditar que outros há, e ninguem se apercebe, que vão coloridamente cheios na nossa mão.
De Jorge G - O Sino da Aldeia a 7 de Julho de 2007 às 12:23
Sinceramente, e porque não li estas "Memórias " do Saramago, convenci-me até ao fim que estava aler uma história tua, como se pudesse també ser a de qualquer um de nós.
Cedo "o mundo" se tornou, assim, enrugado e sujo para aquele menino.
Mas quantos de nós não andamos a arrastar um desses balões pela vida inteira? Quantos?!

Gostei imenso do quadro com que ilustras este excerto.
Um abraço.
De Mel de Carvalho a 7 de Julho de 2007 às 15:14
Luisa, porque será que dói tanto (seja em que idade for) verificar que o nosso mundo se enrugou, se rompeu no alcatrão de um chão imundo?

Bom quando se têm um colo de mãe para nos proteger... a minha já partiu há muito.

Um abraço, amiga. E um bom fim de semana.

De Jofre Alves a 7 de Julho de 2007 às 21:31
As memórias da nossa infância, para mim um tempo feliz e de felicidade impar, embora sem balões, luxo que não havia na minha aldeia minhota. Cara Luísa, desejo boa semana, a par do meu intenso prazer em visitar o teu aprazível blogue, sempre atraente e interessante.
De Martuxa a 8 de Julho de 2007 às 12:35
Gosto tanto de soltar balões e os ver voar =)
Sorrisos e beijinhos

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