Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

PARA OS JOVENS DOS ANOS SESSENTA

E para todos os que gostam da canção francesa

 

 

Juliette Greco canta

Mon Homme- 1964

 

Extracto dum texto de Eduardo Prado Coelho

 

Será por isso que a porta vai rodar de novo, silenciosamente, e eternamente vestida de negro, de cabelos negros, de olhos negros, de luminosas palavras enegrecidas pelo metal da voz, Juliette Gréco poderá aparecer: atravessou rostos e paisagens, portos e bares gingados, manhãs cinzentas de tédio, os filmes de vidas suspensas em torno de um copo de vinho, ouviu o riso do acordéon, brincou com o garota na esquina da rua des Blancs-Manteaux, e recomeçará a dizer com a sua voz felina e espreguiçada: "Désabillez-moi/ Désabillez-moi/ Oui, mais pas tout de suite/ Pas trop vite."

Amanhã, no Centro Cultural de Belém, improvável e imaterial, emergindo da espessa noite da história, entre Boris Vian e Sartre, Prévert e Bataille, Gérard Philippe e Jean Vilar, Malraux e Giacometti, Jacques Brel, Hemingway e Miles Davis, Juliette Gréco virá até nós - cantar, dizer as palavras dos poetas, de um tempo em que a poesia era uma forma de respirar e habitar as manhãs, e atravessar os telhados de Paris, e organizar a Resistência, e ouvir jazz nas caves de Montparnasse, e fotografar um beijo infindável diante do Hotel de Ville, e encontrar Kikki e Gainsbourg. Os poetas são Mac Orlan e Léo Ferré, Queneau ou Prévert, Brel ou Desnos. O que quer dizer que estas palavras estão certas como um tempo que foi e é para sempre a beleza de ter sido.

Havia um pássaro e havia um peixe, e havia entre eles um amor de ternura sem fim: mas como fazer quando um está na água, e o outro lá em cima? Uma formiga de dezoito metros com um chapéu na cabeça - não existe, não existe. Uma formiga puxando um carro de pinguins e de patos feios - não existe, não existe. Mas porque não?, mas porque não? - perguntam os poetas. Mas porque não? - pergunta a Gréco. Ainda. Sempre. Com ela estaremos de novo mais altos do que no dia, mais longe do que na noite. Estaremos (vê, ouve, está) na luz deslumbrante do primeiro amor.

Nota: Julliette Gréco cantou no CCB em Janeiro de 2001

 

publicado por soaresesilva às 17:00

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14 comentários:
De jo a 10 de Fevereiro de 2008 às 21:04
Que voze que mãos quando cantava. O tempo descrito por Euardo Prado Coelho foi um marco da história dos intelectuais tendo como polo essa Paris misteriosa mas que recebia todos de braços abertos.
De delta a 10 de Fevereiro de 2008 às 23:48
E aqui estou eu...uma jovem da geração 60

Foi uma década que deu bons "frutos" na música. BLACK SABBATH , CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL, DEEP PURPLE , LED ZEPPELIN , PINK FLOYD , THE BEATLES , THE DOORS , THE WHO... Na música francesa, para além da Juliette Greco são de recordar também Adamo, Francoise Hardy, Gilbert Bécaud e Sylvie Vartan...e tantos outros..."Frutos" esses que só lhe comecei a tomar o gosto nos anos 70 mas que ainda hoje "saboreio" sempre que posso.


Beijinho, bom início de semana e tudo de bom
De Meg a 11 de Fevereiro de 2008 às 17:43
E de repente, vieram-me à memória todas as recordações desses tempos... o existencialismo.
E sobretudo de Gérard Philippe, de quem conservo um disco em vinil,úma "raridade" claro... Pierre et le Loup.
E agora vou continuar a ouvir a Guliette Gréco, e Leo Ferré...e todos os outros que se misturam na nossa juventude.
Adorei este bocadinho

Um abraço
De skuba a 11 de Fevereiro de 2008 às 23:12
Oh! Belos anos sessenta. . . ainda hoje se cantam as músicas dessa época... e como gostava de ter um giradiscos para poder ouvir os vinis imensos que tenho dessa altura e não só!
Nesses anos a música francesa estava no auge. . .
Obrigada por este bocadinho do século passado, mas sempre actual no presente.
mj
De Jorge G - O Sino da Aldeia a 12 de Fevereiro de 2008 às 14:52
A grande intérprete da chanson, quanto a mim. A voz feminina da boémia pariense, do contra-poder.

Ainda hoje, passados os setenta anos, continua a cantar e encantar.

Jorge G
De ciloca a 12 de Fevereiro de 2008 às 21:09
UPS, Jovem dos anos 60, é comigo.
De Magui a 12 de Fevereiro de 2008 às 21:19
Por um momento me esqueci que estava em Portugal, pensei que seria em Belem no Pará/BR e já estava pensando porque ela não cantava por aqui .Sorte sua poder ter a voz e a presença carismática dessa grande cantora.Meu filho adora música francesa e tem muitas músicas dela no MP3.
De Manuel a 13 de Fevereiro de 2008 às 20:47
Olá.
Um espectáculo!... A satisfação de uns quantos sortudos, que vivem perto do local onde se realiza. Mas inacessível à maioria dos portugueses (estou me referindo, aos que vivem no interior).
Fica bem.
E a felicidade por aí.
Manuel
De Praia da Claridade a 13 de Fevereiro de 2008 às 21:47
Julliette Gréco, uma notável presença, uma voz encantadora. Uma vasta Obra, admirada por muitos, famosa com as suas canções, filmes, teatro... Uma Mulher imparável que, apesar de um problema cardíaco, continuou a cantar. Ainda viva, com 81 anos feitos há poucos dias, será sempre um símbolo da canção francesa.
De Manuela a 14 de Fevereiro de 2008 às 12:33
Neste dia dos Namorados
Venho aqui comentar
Desejo-lhe um dia feliz
E alguém para namorar.


Abraço

Manuela
De Meg a 16 de Fevereiro de 2008 às 21:39
Este post fez com que eu desse vida a um antigo (não velho) gira-discos, de que nunca me desfiz por ter imensos discos em vinil. E foi um matar de saudades... tantos!
Até os Shadows...
Bom fim de semana e um abraço
De Quico, Ventor e Pilantras a 17 de Fevereiro de 2008 às 00:36
Pois é?
Que interessa se a formiga tem 18m, 100m, ou 18 milímetros?
Interessa é que se nós quisermos ela existe! Pelo menos é o que o Ventor me diz. Mas também me pergunta onde anda, em Portugal, a cultura francesa? As Grecos, as Silvies, os Becauds e tantos outros. Em breve vamos ter o Aznavour!
Resposta à tua pergunta: o João Maria é o último. Os que estão aqui http://quicoarreliado.blogs.sapo.pt/2007/03/ são os outros quatro.
Bjs.

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