Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Diário de um Imaginário Vivido

 

 

Diário de um Imaginário Vivido

 

A tarde estava cinzenta. Pela estrada do Rodízio o carro rolava suavemente.

Estranho como a suavidade pode, como era o caso, ser em termos semiológicos um sinal de tristeza. Vinha da Tareca. O ar carregado e silencioso que antes criava em mim uma sensação de paz e sossego era agora só, e simplesmente, sossego. Não. Tristeza, insistiu o meu espírito obsidiantemente em definir. A memória da Ju sobrepunha-se, null, a tudo quanto via diante de mim, reduzirmos a autómato de condução, alienado da paisagem que desfilava em frente do meu olhar alheio. Só recordava os momentos por que passara.

Chegado á Tareca fui envolvido pela memória, ali materializada n uma porção de  terra rasa ainda aqui e ali polvilhada por pétalas já murchas. Como estaria ela lá em baixo? Sentei-me à beira  de uma magnólia que está junto, puxei do papel que levava comigo e li-lhe baixinho o texto que havia há dias escrito. Depois... depois, pus-me á espera que algo acontecesse mentalmente. E ... aconteceu!

Vi, vi sim, que o fio de ouro transformado em memória também havia transmutado aquele espaço no novo cestinho de dormir da JU! Um cestinho diferente que vai ser de flores juncado. Levantei-me, reguei-o e a seguir deambulei pelo jardim até deparar com o Hibisco em floração de uma beleza etérea, contrastante. Arranquei-lhe um haste com a flor mais bonita e plantei-a no centro do cestinho.

Olhei mais uma vez para trás.

"Ah! quando eu chegava e vinhas satisfeita dar-me as boas-vindas! Eras a única... E quando saía , como ficavas triste e, ao sol ou á chuva, sentada á beira da varanda, prescutavas horas a fio o ruído do motor do meu carro. Com tantos carros diferentes a passarem, sabias sempre quando era o meu. Como é que sabias isso?"

Hoje, saí com a certeza de que não terei mais ninguém á minha esperas....

Cheguei ao Bibió, quase vazio, para comer uma sandes. Tinha-me esquecido de almoçar. Começou a chover na desertificada Praia das Maçãs. No pequeno café apenas algumas senhoras, supostamente finas, bebiam, solitárias, uma bica. Estáticas, em contraluz, pareciam um quadro amargurado de Cézanne. Vultos cinzentos com chuva por fundo. Mas, em contraste, voltaste, JU, á minha memória. Tu eras um Chagall cheio de cores de rosa e azuis, com passarinhos a voar á tua volta, flores no ar, poesia em turbilhão.

Entre brumas quase opacas e entre água de uma chuva persistente, voltei a Lisboa.

JACM

4/10/94

 

De como da morte de uma simples cadelinha pôde nascer esta prosa tão poética.

publicado por jo às 22:02

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10 comentários:
De Manuel a 12 de Fevereiro de 2009 às 11:02
Há muitas coisas que esperam por nós. A manhã seguinte; por exemplo.
Fica bem.
E a felicidade por aí.Manuel
De soaresesilva a 12 de Fevereiro de 2009 às 13:06
Que texto tão poético e tão belo! Agora vai haver um adeus ainda mais dramático mas é a vida!
De Chicailheu a 12 de Fevereiro de 2009 às 14:25
Olá amiga
Que belo texto...tão ternurento!
Gostei imenso!
Tudo de bom e beijinhos
Chicailheu
De maripossa a 13 de Fevereiro de 2009 às 22:24
AMIGA LUÍSA! FOLGO EM VER QUE CONTINUAS POR AQUI,POIS JÁ CÁ VIM MAS NDA SABIA DE TI.GOSTEI DO TEXTO COM SENSIBILIDADE E UMA GRNADE TERNURA.
BEIJINHO BFS LISA
De Devaneios Poéticos a 14 de Fevereiro de 2009 às 12:34
O Devaneios é um blog que foi criado para aqueles que gostam de partilhar seus poemas e suas prosas.
A ideia de se criar o blog, partiu da existência do canal #Devaneios, existente no chat do mIRC. É um canal onde se partilha igualmente os poemas e os seus sonhos mais encantados.
Inicialmente, o blog tinha sido criado para mostrarem apenas poemas, mas como ainda há poucas pessoas que conhecem o blog, aceita-se que também enviem suas prosas para o email devaneios.poesia@gmail.com.
O blog está em http://devaneiospoesia.blogspot.com/. Espero que gostei. Ele foi feito para os que gostam de escrever e para aqueles que gostam de poesia.

Cumprimentos atenciosos.

Marisa Correia
De mfc a 14 de Fevereiro de 2009 às 16:48
Que texto lindo, Jo!
Que comovente.
Toma um grande beijinho.
És muito Linda!
De skuba a 15 de Fevereiro de 2009 às 01:02
Texto bonito e sentido. . . Como compreendo . . . estou perto de ter uma situação semelhante e já sinto a dor e a ausência .
E agora foi a despedida de vez não só da lembrança da Ju como do local onde ela descansa.
A vida continua . . . E a recordação guarda-se num cantinho do n coração . . .
mj
De mfc a 15 de Fevereiro de 2009 às 15:10
Ainda me faltava dizer isto...
Tenho cá em casa uma cadela rafeira com 14 anos que já não ouve nada, que está praticamente cega e que é uma alegria o dia todo!

Um beijo grande para ti.
De padeiradealjubarrota a 16 de Fevereiro de 2009 às 17:42
Os animais dão-nos: fidelidade incondicional.
De paragembreve a 21 de Fevereiro de 2009 às 22:05
Belíssimo texto! E comovente tambêm... Abraço grande!

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