Na senda dos últimos posts da Luísa , deixo aqui um excerto do que penso ser uma deliciosa prosa poética, para que, naqueles dias de verão em que a canícula aperta, acolhidos a uma boa sombra possamos descontrair.
..."Sou feliz só por preguiça. A infelicidade d dá uma trabalheira pior que a doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar , aceitar os pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.
-Levanta, ó dono das preguiças.
É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina .
Eu respondo:
-Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos.
-Conversa de malandro...
-Sabe uma coisa, Dona Luarmina ? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto para viver...
Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza.
-Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher...
-Mulher, eu?
-Sim, mulher é que senta em esteira. você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
-Que quer, vizinha? Cadeira não d à jeito para dormir.
Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré.
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, D. Luarmina ? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou - não Deus...
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. por isso eu, reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. aprendi. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. a gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações .
- Não é verdade, dona Luarmina ? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro?
Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África . Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. então eu me suficiento do actual presente. Basta.
...."
Para saber o resto da "estória", só lendo:
"Mar me quer", de Mia Couto, edições Caminho
Ilustrações João Nasi Pereira
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