
Orlando Mattos
"Foi no decorrer do ano maldito, do ano a que chamámos "o festim do sol". É que o sol, nesse ano, dilatou o deserto. Brilhou e brilhou sobre as areias, entre as ossadas, as sarças secas, as peles transparentes dos lagartos mortos e essa erva dos camelos mudada em crinas. Aquele que faz crescer os caules das flores tinha devorado as suas criaturas e reinava sobre os cadáveres dispersos delas, da mesma maneira que a criança reina sobre os brinquedos que destruíu.
Absorveu até as reservas subterrâneas e bebeu a água dos poços existentes. Absorveu mesmo os dourados das areias, que se tornaram tão vazias e brancas, que baptizámos a região como o nome de espelho. É que um espelho não contem absolutamente nada e as imagens que o recheiam não têm peso nem duração. É que um espelho queima por vezes os olhos, como um lago de sal."
Saint-Exupéry in Cidadela

Imagens cheias de simbolismo...
Terno Abraço
ConchitaMachado
Até me "arrepio" ao ler este post ... porque é uma reflexão que podia tornar-se realidade !
Porque penso muitas vezes que qualquer elemento da Natureza possa desfazer por completo aquilo que o Homem tem edificado...
Ele próprio já é uma vítima daquilo que tem feito de errado no nosso Planeta. Muitos povos já estão a sofrer com esses erros... Todos sabemos como está este Mundo !
Só é de lamentar que, quando os responsáveis "acordarem", já seja tarde de mais !
O deserto é algo que tanto de belo como de arrasador eu que o diga até tenho um blogue assim e tudo:)
Gosto muito de voltar ao teu blogue, faz pensar no que estou a ler perco ou ganho muito tempo a deambular nas palavras, isso é muito positivo ;)
Fez bem em publicar esse belíssimo texto.Pelo que andou acontecendo em Portugal veio a calhar.
O calor já lá vai,
mas as sensações ainda não...
tem um resto de uma boa semana luisa :)
um beijo :)
Aceita o meu desafio
De APC a 7 de Setembro de 2006 às 20:46
Praia: e aquilo que o Homem edifica arruinará com os elementos da natureza... Água doce em perigo, ozono em perigo, etc,. etc. :-)))
Soares (lol): a passagem é forte e muito bonita.
:-*
De
jo a 7 de Setembro de 2006 às 21:27
A Natureza sempre teve ciclos que quase destruiram o planeta, mas também foi tendo força para se recuperar. Entretanto apareceu o Homem, que, na ânsia de se ultrapassar, mais não tem feito que ajudar a destruir, possivelmente, sem retorno.
"É que um espelho não contem absolutamente nada e as imagens que o recheiam não têm peso nem duração. É que um espelho queima por vezes os olhos, como um lago de sal."
O espelho de nós mesmos. A nossa reflexão, o efémero, o transitório... e, simultâneamente em momentos, a nossa imagem projectada é de tal forma grotesca, disforme, que nos consegue ferir tal um lago de sal.
Saint-Exupéry teve a sabedoria de, em frase metafóricas nos conduzir ao mais secreto de nós mesmos. A vulnerabilidade do ser humano e, ao mesmo tempo a sua pequenez perante o Universo grandioso.
Nada se ajustaria melhor ao meu estado de espírito, hoje em que vi a minha imagem, grotesca, desmensurada e patética projectada num lençol de sal (as minhas próprias lágrimas).
O Sol havia devorado as minhas asas, eu tombava sobre o peso de uma ilusão "nada era meu, nem eu própria sou alguma coisa"...
Bjs da AVeneziana
Gostei muito da música, do texto, do quadro de Picasso...
Bjs
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