Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

A ALIMENTAÇÃO NA IDADE MÉDIA EM PORTUGAL




Notas retiradas do livro de A.H.Oliveira Marques

A SOCIEDADE MEDIEVAL PORTUGUESA (Livraria Sá da Costa - 3ª edição 1974)


De uma maneira geral, a alimentação medieva era pobre, se comparada com os padrões modernos. A quantidade supria, quantas vezes, a qualidade. A técnica culinária achava-se ainda numa fase rudimentar e as conquistas da cozinha romana tinham-se perdido.

As duas refeições principais do dia eram o jantar e a ceia. Jantava-se, nos fins do século XIV, entre as dez e as onze horas da manhã. Ceava-se pelas seis ou sete horas da tarde.

 

O jantar era a refeição mais forte do dia. O número de pratos servidos andava, em média, pelos três, sem contar sopas, acompanhamentos ou sobremesas. Para os menos ricos, o número de pratos ao jantar podia descer  para dois ou até um. À ceia, baixava para dois a média das iguarias tomadas.

 

A base da alimentação era a carne. Ao lado das carnes de matadouro ou carnes gordas - vaca, porco, carneiro, cabrito - consumia-se largamente caça e criação.

A criação não variava muito da de hoje: galinhas, patos, gansos, pombos, faisões, pavões, rolas, coelhos. Não existia ainda o perú que só veio para a Europa depois do descobrimento da América..

Fabricavam-se também enchidos vários, como chouriços e linguiça.

A forma mais frequente de cozinhar a carne era assá-la no espeto (assado). Mas servia-se também carne cozida (cozido), carne picada (desfeito) e carne estufada (estufado).

O peixe situava-se também na base da alimentação , especialmente entre as classes menos abastadas, e durante os dias de jejum estipulados pela Igreja.

Um dos peixes mais consumidos pelos portugueses na Idade Média, parece ter sido a pescada (peixota). Sardinha, congros, sáveis, salmonetes e lampreias viam-se também com frequência  nas mesas de todas as classe sociais. Também se comia carne de baleia e de toninha, bem como mariscos e crustáceos.

Ao lado do peixe fresco, a Idade Média fez grande uso  de peixe seco salgado e defumado.

Não eram especialmente apreciadas as hortaliças e os legumes, pelo menos entre as classe superiores. O povo, esse fazia basto uso das couves, feijões e favas. As favas, assim como as ervilhas, as lentilhas, o grão de bico tinham igualmente significado como  sucedânios ou complementos do pão. Os portugueses do interior, sobretudo beirões e transmontanos recorriam á castanha. Durante metade do ano comiam castanha em vez de pão.

Nas casas ricas , onde a culinária era requintada, as ervas de cheiro serviam de ingredientes indispensáveis à preparação das iguarias, como coentros, salsa e hortelã, ao lado de sumos de limão e de agraço, vinagre, de cebola e de pinhões. Cebola e azeite entravam para o tradicional refogado.

Para bem condimentar os alimentos, usavam os portugueses da Idade Média espécies várias de matérias gordas. O azeite, em primeiro lugar mas também a manteiga, o toucinho e a banha de porco ou de vaca.

O tempero básico era, naturalmente, o sal também usado para a conservação dos alimentos.

As chamadas viandas de leite estão sempre presentes, isto é, queijo, nata, manteiga e doces feitos à base de lacticínios. O leite consumia-se em muito fraca quantidade. Na sua maior parte transformava-se em queijo ou manteiga. Servia também como medicamento.

Ovos consumiam-se cozidos, escalfaldos e mexidos.

A fruta desempenhava papel de relevo nas dietas alimentares medievais. Conheciam-se praticamente todas as frutas que comemos hoje. Muitas eram autóctones, outras foram introduzidas pelos árabes. Apenas a laranja doce viria a ser trazida por Vasco da Gama. Certas frutas eram consideradas pouco saudáveis como as cerejas e os pêssegos por os julgarem "vianda húmida". Também o limão se desaconselhava  por "muito frio e -agudo". Era uso comer fruta acompanhada de vinho, à laia de refesco ou como refeição ligeira, própria da noite. Da fruta fresca se passava à fruta seca e às conservas e doces de fruta. Fabricavam-se conservas e doces de cidra, pêssego, limão, pera, abóbara e marmelo. ªDe laranja se fazia a famosa flor de laranja, simultaneamente tempero e perfume.

O fabrico de bolos não se encontrava muito desenvolvido. Anteriormente ao século XV, o elevado preço do açúcar obrigava ao uso do mel como único adoçante ao alcance de todas as bolsas.

Havia excepções: fabricavam-se biscoitos de flor de laranja, pasteis de leite e pão de ló, juntamente com os chamados farteis, feitos à base de mel, farinha e especiarias. Com ovos também se produziam alguns doces: canudos e ovos de laçoa.
Contudo, só a partir do Renascimento se desenvolverá a afamada indústria doceira nacional.

Mas a base da alimentação medieval, quanto ao povo miúdo, residia nos cereais e no vinho. Farinha e pão, de trigo, milho ou centeio, e também cevada e aveia, ao lado do vinho, compunham os elementos fundamentais da nutrição medieva. E no campo havia sucedânios  para o pão: a castanha ou a bolota, por exemplo.

O número de bebidas era extremamente limitado. Café. chá, chocolate, cerveja,  desconheciam-se. À base do vinho e água  se matava a sede ou se acompanhavam os alimentos. Bebia-se vinho não só ao natural mas também cozido e temperado com água.


 

publicado por soaresesilva às 19:24

link do post | comentar | favorito
106 comentários:
De juliana a 29 de Julho de 2008 às 18:59
aguém pode dizer onde eu acho Portugal no fim da idade media?
De Frodoo a 29 de Outubro de 2008 às 20:11
"Mas a base da alimentação medieval, quanto ao povo miúdo, residia nos cereais e no vinho. Farinha e pão, de trigo, milho ou centeio, e também cevada e aveia"

Ó amigo, MILHO na idade média ?

Que eu saiba, antes de Colombo não havia milho na Europa. De onde você tirou esta ideia ?

Frodoo
De Anónimo a 5 de Novembro de 2008 às 15:06
Havia uma espécie de milho diferente, mais mitigada, do que a que se utiliza hoje em dia, essa sim, proveniente das Américas.
De Frodoo a 20 de Novembro de 2008 às 02:43
Por acaso não sabe que nome tinha esse cereal (espécie de milho diferente) ? Porque milho não devia ser com certeza. Estou curioso porque jogo Reinos da Renascença e lá também "usam" milho antes de Colombo. A saber o nome correcto do cereal poderia sugerir uma correcção. Obrigado
De Leia os textos medievais a 5 de Dezembro de 2013 às 19:43
Há imensas referências ao milho miúdo em Portugal nos textos medievais...
O milho graúdo, esse sim, de maior qualidade e mais cobiçado, foi importado das Américas - incas, astecas...
De Juvenal Nunes a 26 de Outubro de 2011 às 21:52
O dr.Oliveira Marques é um dos mais credenciados historiadores portugueses.Na realidade o consumo do milho na Idade Média é um facto, o que acontece é que a sua designação não se encontra especificada. O milho que cá se cultivava era o milho alvo, milho miúdo ou simplesmente milho. Da América veio realmente ,mais tarde ,o milho graúdo.
A Idade Média conheceu os pães terçados e quartados, em que entravam farinhas de trigo.centeio,cevada e milhos miúdos.
Espero ter contribuído,com esta informação,para um melhor esclarecimento.
De Lacerda a 5 de Janeiro de 2010 às 10:39
Achei o post sobre a época medieval interessante. Dá para saber quem é o autor da pintura que o ilustra? Calculei ser Brueghel, mas parece não ser.
Desejo-vos um óptimo Ano Novo.
Lacerda
Em Munique
De PPS a 30 de Abril de 2010 às 23:08
Axei esse blog suuuuuuuuuuper interessante!!!
Parabens pelo maravilhoso BLOG!!!!!
De Juvenal Nunes a 26 de Outubro de 2011 às 19:58
Pela descição parece-me evidente a abundância de alimentos.Provavelmente as carências verificar-se-iam em tempos de guerra, ou epidemias.Parece-me também que as cllasses populares faziam uma alimentação mais saudável, pelo recurso mais frequente aos produtos hortícolas e legumes, bem como ao consumo de peixe.
È de notar o consumo corrente ,pelas classes populares,de lampreia, mariscos e até faisão, que hoje, infelizmente não estão ao alcance de todas as bolsas.
A faita do açúcar, nesse tempo,também não prejudicou a saúde de ninguém.
De Julia Martins de Almeida a 21 de Maio de 2018 às 10:55
M u amigo, estas muito louco HSHSHSHS, milho?!?! Não existia na Europa medieval HSHSHS, milho é de origem mexicana, milho é do novo mundo! O milho se espalhou após as grandes navegações. Não existia milho na Europa medieval. Não acreditem nesse texto. Nem um pouco embasado e com erros grotescos.
De Anónimo a 3 de Janeiro de 2019 às 11:55
Lol muito bom não gostei
De Anónimo a 3 de Janeiro de 2019 às 11:57
vai tudo pó crlh..
De Anónimo a 3 de Janeiro de 2019 às 11:57
Mal educados a comentar xoisas destas

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. Alenquer

. INVERNO

. Feliz Ano Novo

. ANIVERSÁRIO

. Cinismos de Verão

. NEVOEIROS DE SÃO PEDRO DE...

. COMPENSAÇÃO PERANTE A CRI...

. Homenagem a Rafael Bordal...

. CAPARICA

. Páscoa Feliz

.arquivos

. Junho 2013

. Janeiro 2012

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds