
Foto M.J.Jara
A chuva cai lá fora, trazendo a água que tanta faz à terra, mas com ela no vazio das cidades, sente-se mais a tristeza e o peso da atmosfera húmida e um tanto lúgubre .
Nestes dias, em que a grande cidade me aprisiona em casa, sinto-me acabrunhada e numa enorme solidão, e nem o conforto duma atmosfera criada por mim me levanta o estado de alma.
Enrosco-me num sofá, com os cães dormindo a meus pés, como que a dizer-me nós estamos aqui e somos a tua companhia e incondicionais na nossa fidelidade. Pego num livro e abro uma página ao acaso e que leio?

Foto de A.P.Silva
"De que te queixas, alma abandonada? Por que razão esse voo agitado em torno do casulo? Porquê não olhar o horizonte que te pertence em vez de lutar contra o que te é alheio? Mais vale um pombo vivo no telhado que o pardal semimorto na tua mão batendo as as asas de terror."
Kafka . in Meditações, editora Alma azul

Foto de M.J.Jara
Estes dias chuvosos são muito propícios à meditação porque nos obrigam a estar em casa e é no silêncio da casa que pomos em ordem os pensamentos. Sinto uma grande alegria por estar a chover porque a terra estava a pedir água.
De
Smareis a 17 de Fevereiro de 2008 às 18:21
Linda meditação que nós reflete na vida real. Estou de volta ao blog depois de umas longas férias. Deixo um beijo no coração de amizade, te desejando um ótimo começo de semana.
Bjks!
Acho que se refere à esta poesia de Gonçalves Crespo, a qual, segundo alguns, foi musicada pelos escravos.
A Sesta
Na rede, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagüi.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
___________
Outra, deste mesmo autor:
A Negra
Teus olhos, ó robusta criatura,
Ó filha tropical!
Relembram os pavores de uma escura
Floresta virginal.
És negra sim, mas que formosos dentes,
Que pérolas sem-par
Eu vejo e admiro em rúbidos crescentes
Se te escuto falar!
Teu corpo é forte, elástico, nervoso.
Que doce a ondulação
Do teu andar, que lembra o andar gracioso
Das onças do sertão!
As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,
Desprezam tua cor,
Mas invejam-te as formas gloriosas
E o olhar provocador.
Mas andas triste, inquieta e distraída;
Foges dos cafezais,
E no escuro das matas, escondida,
Soltas magoados ais...
Nas esteiras, à noite, o corpo estiras
E com ânsias sem-fim,
Levas aos seios nus, beijas e aspiras
Um cândido jasmim...
Amas a lua que embranquece os matos,
Ó negra juriti!
A flor da laranjeira, e os níveos cactos
E tens horror de ti!...
Amas tudo o que lembre o branco, o rosto
Que viste por teu mal,
Um dia que saías, ao sol posto,
De um verde taquaral...
________
Mais um, também muito bonito:
As Ondinas
Na praia tranqüila murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Beijos, querida amiga, a boa gente do condado sente-se feliz em lhe ajudar.
P.S.: Enviei também para o seu e-mail
TOC...TOC...TOC...TEM ALGUÉM EM CASA??? POSSO ENTRAR??? PEÇO LICENÇA PRA CONHECER SEU CANTINHO...MUITO ACONCHEGANTE E REPLETO DE BOAS ENERGIAS.LINDAS POSTAGENS, DE MUITO BOM GOSTO E SENSIBILIDADE.SOU AMIGA DA SMAREIS.PARABÉNS PELO ESPAÇO REFLEXIVO E INTROSPECTIVO!SOU ESCRITORA AMADORA, E PUBLICO MEUS TEXTOS NOS MEUS BLOGS.QDO TIVER UM TEMPINHO, PASSE POR LÁ.TENHA UMA SEMANA RECHEADA DE ALEGRIAS E PAZ!UM CARINHOSO ABRAÇO, RAQUEL KEKA.
http://keka-dan.myblog.com.br
http://fascinacaoempoemas.splinder.com
http://segredosdocoracaoedaalma.myblog.com.br
Acho que se refere à esta poesia de Gonçalves Crespo, a qual, segundo alguns, foi musicada pelos escravos.
A Sesta
Na rede, que um negro moroso balança,
Qual berço de espumas,
Formosa crioula repousa e dormita,
Enquanto a mucamba nos ares agita
Um leque de plumas.
Na rede perpassam as trêmulas sombras
Dos altos bambus;
E dorme a crioula de manso embalada,
Pendidos os braços da rede nevada
Mimosos e nus.
A rede, que os ares em torno perfuma
De vivos aromas,
De súbito pára, que o negro indolente
Espreita lascivo da bela dormente
As túmidas pomas.
Na rede suspensa de ramos erguidos
Suspira e sorri
A lânguida moça cercada de flores;
Aos guinchos dá saltos na esteira de cores
Felpudo sagüi.
Na rede, por vezes, agita-se a bela,
Talvez murmurando
Em sonhos as trovas cadentes, saudosas,
Que triste colono por noites formosas
Descanta chorando.
A rede nos ares de novo flutua,
E a bela a sonhar!
Ao longe nos bosques escuros, cerrados,
De negros cativos os cantos magoados
Soluçam no ar.
Na rede olorosa, silêncio! deixa-a
Dormir em descanso!...
Escravo, balança-lhe a rede serena;
Mestiça, teu leque de plumas acena
De manso, de manso...
O vento que passe tranqüilo, de leve,
Nas folhas do ingá;
As aves que abafem seu canto sentido;
As rodas do engenho não façam ruído,
Que dorme a Sinhá!
___________
Outra, deste mesmo autor:
A Negra
Teus olhos, ó robusta criatura,
Ó filha tropical!
Relembram os pavores de uma escura
Floresta virginal.
És negra sim, mas que formosos dentes,
Que pérolas sem-par
Eu vejo e admiro em rúbidos crescentes
Se te escuto falar!
Teu corpo é forte, elástico, nervoso.
Que doce a ondulação
Do teu andar, que lembra o andar gracioso
Das onças do sertão!
As lânguidas sinhás, gentis, mimosas,
Desprezam tua cor,
Mas invejam-te as formas gloriosas
E o olhar provocador.
Mas andas triste, inquieta e distraída;
Foges dos cafezais,
E no escuro das matas, escondida,
Soltas magoados ais...
Nas esteiras, à noite, o corpo estiras
E com ânsias sem-fim,
Levas aos seios nus, beijas e aspiras
Um cândido jasmim...
Amas a lua que embranquece os matos,
Ó negra juriti!
A flor da laranjeira, e os níveos cactos
E tens horror de ti!...
Amas tudo o que lembre o branco, o rosto
Que viste por teu mal,
Um dia que saías, ao sol posto,
De um verde taquaral...
________
Mais um, também muito bonito:
As Ondinas
Na praia tranqüila murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Espero que seja esta mesmo. A boa gente do condado sente feliz em ajudar-lhe.
Beijos, querida amiga!
De
Raquel a 17 de Fevereiro de 2008 às 20:51
Olá!
Vim lhe fazer uma visita!!!
Adorei seu blog!!!!!!!
Uma ótima semana!
Beijos
Convite:
http://cara-nova.zip.net
Olá!
Vim lhe fazer uma visita!!!
Adorei seu blog!
Uma ótima semana!
Beijos
Convite:
http://cara-nova.zip.net
De
Magui a 17 de Fevereiro de 2008 às 22:02
Com tudo isso é melhor do que o clor terrível que faz por aqui.
De
maripossa a 18 de Fevereiro de 2008 às 00:02
Amiga Luísa. Pois a chuva tem algum encanto, eu gosto de estar em casa no inverno, como dizes no texto, eu chamo mais de casulo, a água é tão precisa que a terra espera por ela.
Beijinho doce.
Maria Elisa
Um grande conselho, este do Kafka. E olha que o cara era até meio sombrio, além de não contar com o otimismo como a sua melhor virtude.
Beijos, querida Jo!
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